quinta-feira, 30 de setembro de 2010

PLANTAS EM EXTINÇÃO...

A biodiversidade aponta o culpado

Notícia - 29 set 2010
Pesquisa inglesa conclui que um quinto das espécies de plantas do mundo está ameaçado de extinção. E que o grande responsável é o homem.


©Greenpeace

Um estudo de cinco anos conduzido por pesquisadores do Jardim Botânico Real, na Inglaterra, concluiu que mais de um quinto das espécies de plantas do mundo estão hoje sob ameaça de extinção. O anúncio, fruto do mais completo relatório já elaborado sobre o tema, acontece às vésperas do encontro da ONU sobre biodiversidade, em Nagoya, no Japão.

Para a pesquisa foram usados os arquivos do Jardim Botânico e do Museu de História Natural de Londres, que juntos reúnem cerca de 13 milhões de espécies, e dados da organização União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Os resultados apontam a atividade humana – entre elas, agricultura e desmatamentos - como sendo a principal causa de ameaças a mais de 380 mil espécies do mundo, com impressionantes 81%, contra 19% de responsabilidade de causas ditas naturais. Florestas tropicais estão no topo das mais ameaçadas.

“Estas conclusões reforçam a necessidade de tomarmos ações urgentes para acabar com desmatamentos até 2020, não apenas por causa da biodiversidade da flora, mas também por conta das mudanças climáticas”, diz Christoph Thies, coordenador da Campanha de Florestas.

“No mundo, a cada dois segundos, uma área de florestas do tamanho de um campo de futebol desaparece. O desmatamento é a causa de um quinto das emissões de gases de efeito estufa globais, mais do que todos os carros, aviões e trens do mundo somados”, complementa Thies.

Representantes de 193 países estarão reunidos em Nagoya para a 10ª Conferência das Partes da Organização das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica. O objetivo é o de chegar a metas comuns de redução das perdas.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Seca nossa de cada dia

FONTE: GREEN PEACE BRASIL
Notícia - 24 set 2010
Vazante nos rios deixa 21 municípios do Amazonas em situação de emergência. Sem políticas estruturais para a região, comunidades ficam vulneráveis a cada ano.

A coleta do Censo do IBGE anda atrasada no Amazonas, e não é só pelas imensas dimensões do estado. Segundo o instituto, a vazante dos rios tem feito os recenseadores se desdobrarem para alcançar alguns pontos da Zona Rural. Com o leito seco em muitos rios e igarapés, é difícil chegar aos domicílios. O Amazonas está em último lugar na contagem de casas que já foram visitadas por todo o Brasil.

“Os barcos maiores não estão passando em muitos igarapés. Só dá para ir de canoa. E às vezes, nem isso. Tive que ir a pé para chegar em algumas comunidades”, conta Alcione Lopes, de 34 anos e que está fazendo o recenseamento na zona rural de Manaquiri. Não está sendo fácil, e alguns trajetos que ela faria em 15 minutos de barco têm levado uma hora de pé no chão. “Para atravessar é muito ruim, pois os igarapés que secaram ficaram cheias de poças de lama. Em alguns lugares, cheguei a ficar com lama até a metade da perna. Meu cronograma era fazer 15 casas por dia, mas desse jeito não faço nem oito”.

Se os recenseadores têm enfrentado obstáculos, quem está do outro lado da margem sofre ainda mais. Até agora, a Defesa Civil decretou situação de emergência em 21 municípios do estado – a maioria na porção oeste – afetando mais de 140 mil pessoas. Isoladas, muitas comunidades ficam sem água, transporte ou alimento, pois é dos rios que elas tiram esses recursos e é por eles que transitam. Doenças como diarreia, dengue e malária se espalham com mais facilidade. “Essas pessoas dependem do rio para beber e comer. A vida delas gira em torno desses leitos. Quando secam, a situação fica difícil”, observa Alcione.

Segundo o Serviço Geológico do Brasil (CPRM), o ponto mais crítico da vazante esse ano foi no oeste do estado do Amazonas, em Tabatinga, por onde passa o rio Solimões. Lá, o leito ficou 36 centímetros abaixo da marca de 1963, quando a estiagem bateu recordes na região. Mas de acordo com técnicos do CPRM e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o nível dos rios já voltou a subir com as chuvas dos últimos dias. A previsão é que, por conta do La Niña, as chuvas sejam antecipadas esse ano.

O fenômeno das cheias e da vazante é comum nos rios amazônicos, em uma região que todo ano passa por períodos de seca e de precipitações. A Defesa Civil, inclusive, já está acostumada a operações desse tipo, tanto em época de estiagem, como em enchentes. Mas em alguns anos, a situação piora. Ano passado, por exemplo, o órgão teve trabalho redobrado quando 58 dos 61 municípios do Amazonas anunciaram situação de emergência frente as águas que não paravam de subir. Em 2005, a seca também castigou com proporções sem precedentes.

Eventos extremos como esse prometem se tornar mais comuns daqui para frente. Ainda que não dê para afirmar com todas as letras que esses fenômenos estão ligados às mudanças climáticas, os impactos do homem no meio ambiente têm gerado inegáveis desequilíbrios nos ecossistemas e ciclos naturais.

Esse ano, o governo já anunciou que deve liberar cerca de R$ 4 milhões para cobrir os problemas causados pela estiagem no Amazonas. Quando as enchentes chegarem, mais alguns milhões devem tapar os novos estragos. Aguardando a liberação dos recursos, a Defesa Civil espera começar uma operação semana que vem nas áreas mais críticas, levando mantimentos, remédios, produtos de higiene pessoal e purificadores de água.

Quando vêm com força, tanto a seca quanto a subida dos rios traumatizam quem está na linha de frente. Mas isso passa, com ajuda dos recursos que brotam para tapar o sol com a peneira. Quanto às mudanças estruturais que poderiam evitar prejuízos nas temporadas seguintes, ninguém fala nada.

Como parte do trabalho que desenvolve na Amazônia, o Greenpeace está acompanhando os altos e baixos da estiagem esse ano, usando dados de órgãos que fazem esse monitoramento.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A AMAZÔNIA

floresta
A amazônia sob nova direção
Começa a vigorar a concessão de florestas ao setor privado, a maior aposta do governo para conciliar geração de riqueza com conservação. No papel, o modelo é o que há de mais moderno - resta saber se vai funcionar na prática
No meio de uma densa área de mata tropical na porção noroeste do estado de Rondônia, um grupo de 40 pessoas aguardou ansiosamente por cerca de três semanas pela chegada de um sinal. No último dia 10, ele finalmente veio. Era o que elas precisavam para, num ritmo frenético, começar a derrubar cerca de 7 000 árvores do bioma amazônico. São ipês, angelins, cedros e cumarus de dezenas ou centenas de anos que virão ao chão sob o barulho ensurdecedor de inclementes motosserras. Diferentemente do que o cenário descrito acima pode sugerir, as pessoas que ceifarão essas árvores não são vilões do meio ambiente, como pecuaristas que desmatam para ganhar mais área para seus rebanhos, grileiros ou madeireiros ilegais. São funcionários diretos e terceirizados da Amata, empresa com sede em São Paulo que, há cinco anos, nasceu com o propósito de conservar a floresta e também ganhar dinheiro com suas riquezas - e a madeira é apenas a mais óbvia delas.

O tal sinal que eles esperavam para começar a operar era uma autorização do Ibama. É verdade que há hoje outras empresas na Amazônia tentando fazer vingar o binômio exploração-conservação. O que distingue a Amata e mais duas empresas de origem local, a Madeflona e a Sakura, é o fato de terem sido as primeiras a ganhar, em 2008, uma licitação para testar a viabilidade da exploração sustentável em uma área de 96 000 hectares da Jamari, floresta pública que pertence à União.

Daqui em diante, essas empresas estarão na mira de ambientalistas, pesquisadores e demais interessados na causa das florestas. Mas não serão as únicas a sofrer escrutínio público. As maiores atenções estarão voltadas para o próprio governo, responsável pela aprovação, em março de 2006, da lei de gestão de florestas públicas. Foi ela que concedeu ao setor privado o direito de explorar produtos e serviços nas áreas em regime de concessão, desde que respeitada uma série de limites e critérios sociais e ambientais. A lei foi uma das bandeiras da então ministra do Meio Ambiente, hoje candidata à Presidência pelo Partido Verde, Marina Silva. À época, houve críticas à sua aprovação. Entre as mais correntes, estava a de que a legislação endossaria a privatização da Amazônia, além de formalizar a total incompetência do governo em manter intocado seu próprio patrimônio. Alguns especialistas também levantaram dúvidas quanto às benesses do chamado "manejo".

Waack e Etel, sócios da Amata: a empresa será uma das primeiras a testar a viabilidade do modelo de concessões florestais do governo
No meio de uma densa área de mata tropical na porção noroeste do estado de Rondônia, um grupo de 40 pessoas aguardou ansiosamente por cerca de três semanas pela chegada de um sinal. No último dia 10, ele finalmente veio. Era o que elas precisavam para, num ritmo frenético, começar a derrubar cerca de 7 000 árvores do bioma amazônico. São ipês, angelins, cedros e cumarus de dezenas ou centenas de anos que virão ao chão sob o barulho ensurdecedor de inclementes motosserras. Diferentemente do que o cenário descrito acima pode sugerir, as pessoas que ceifarão essas árvores não são vilões do meio ambiente, como pecuaristas que desmatam para ganhar mais área para seus rebanhos, grileiros ou madeireiros ilegais. São funcionários diretos e terceirizados da Amata, empresa com sede em São Paulo que, há cinco anos, nasceu com o propósito de conservar a floresta e também ganhar dinheiro com suas riquezas - e a madeira é apenas a mais óbvia delas.

O tal sinal que eles esperavam para começar a operar era uma autorização do Ibama. É verdade que há hoje outras empresas na Amazônia tentando fazer vingar o binômio exploração-conservação. O que distingue a Amata e mais duas empresas de origem local, a Madeflona e a Sakura, é o fato de terem sido as primeiras a ganhar, em 2008, uma licitação para testar a viabilidade da exploração sustentável em uma área de 96 000 hectares da Jamari, floresta pública que pertence à União.

Daqui em diante, essas empresas estarão na mira de ambientalistas, pesquisadores e demais interessados na causa das florestas. Mas não serão as únicas a sofrer escrutínio público. As maiores atenções estarão voltadas para o próprio governo, responsável pela aprovação, em março de 2006, da lei de gestão de florestas públicas. Foi ela que concedeu ao setor privado o direito de explorar produtos e serviços nas áreas em regime de concessão, desde que respeitada uma série de limites e critérios sociais e ambientais. A lei foi uma das bandeiras da então ministra do Meio Ambiente, hoje candidata à Presidência pelo Partido Verde, Marina Silva. À época, houve críticas à sua aprovação. Entre as mais correntes, estava a de que a legislação endossaria a privatização da Amazônia, além de formalizar a total incompetência do governo em manter intocado seu próprio patrimônio. Alguns especialistas também levantaram dúvidas quanto às benesses do chamado "manejo".

Veja o quadro

Desde 2006, uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente passou a exigir que as empresas que exploram madeira nativa tornem públicos na internet seus planos de manejo aprovados pelo Ibama - documento que mostra toda a estratégia de exploração das matas. "Nos outros países tropicais, essa transparência simplesmente não existe", diz Veríssimo. Na prática, isso significa que, assim que a Amata começar a operar, o Imazon usará a tecnologia de satélite para checar se a empresa está realmente levando a sério o que se comprometeu a fazer no papel. "Não poderemos dizer se uma castanheira foi derrubada, o que é proibido", diz ele. "Mas temos como saber se a concessionária realmente está colhendo madeira na área definida para aquele ano ou sendo cuidadosa na abertura de uma estrada." A lei também define que, no período máximo de três anos, todas as áreas sob concessão sejam auditadas por uma empresa independente. Nessa hora, os executivos da Amata terão de provar que a atividade da empresa não só está fazendo bem aos 46 000 hectares de floresta sob sua administração como também às comunidades que a cercam. O processo de licitação considera uma série de critérios sociais, como o volume de empregos que a empresa irá gerar e o grau de beneficiamento que a madeira sofrerá localmente antes de seguir rumo a um grande centro consumidor. "Estamos ansiosos para provar que as florestas têm valor e podem gerar muito valor", diz Roberto Waack. Biólogo de formação, ele é um dos sócios da Amata e uma figura respeitada no setor florestal. Ex-diretor do grupo Orsa, dono da maior área no país de florestas nativas sendo exploradas com a técnica do manejo, Waack também é conhecido no meio porque é presidente do conselho do FSC, o selo verde mais respeitado no mundo para produtos de origem florestal. Outra executiva e sócia da Amata é a mineira Etel Carmona, uma badalada designer de móveis de luxo.

Ilegalidade
Pouca gente duvida que o modelo de concessão tem potencial para gerar valor. "O problema é a morosidade com que as concessões têm sido feitas", afirma Roberto Smeraldi, diretor da ONG Amigos da Terra. Não é o único a fazer a crítica. Entre ambientalistas e empresários do setor privado é hoje consenso que o ritmo com que as florestas têm sido licitadas está muito aquém do desejável. Afinal, três anos e meio se passaram desde que a lei foi regulamentada, e a meta do Serviço Florestal Brasileiro é terminar 2010 com apenas 1 milhão de hectares concedidos ao setor privado - algo como metade do estado de Sergipe. Para um leigo, pode parecer muito, mas é uma área que corresponde a menos de 1% do total da floresta Amazônica brasileira. A culpa, afirmam os críticos, é menos do SFB e mais dos outros dois órgãos de quem ele depende para conduzir o processo: o Ibama e o Instituto Chico Mendes. "Se o Serviço Florestal tivesse mais autonomia, tudo andaria mais rápido", afirma o diretor de uma ONG. Como é pouco provável que isso aconteça, o que resta aos entusiastas das concessões é ter paciência. "Não queremos ser os únicos nesse jogo", diz Waack. "Só a escala nos permitirá brigar de igual para igual com quem explora a floresta de maneira ilegal e predatória."