terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O PLANETA ESTÁ DOENTE E TEM PRESSA



Até mesmo os mais incrédulos já concordam: a temperatura da Terra está subindo e a maior parte do problema é provocada por ações do homem, como a queima de combustíveis fósseis. Ainda persistem divergências acerca do tamanho do impacto sobre a vida humana. As soluções também são controversas
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Por Ronaldo França e Ronaldo Soares
Revista Veja - 07/05/2008

PREVISÕES

1. EXISTE ALGUMA DÚVIDA CIENTÍFICA INCONTESTÁVEL DE QUE O PLANETA ESTÁ SE AQUECENDO?
Não. Nem os cientistas mais céticos colocam esse fato em dúvida. Nos últimos 100 anos, a temperatura média mundial subiu 0,75 grau Celsius. Também não existe contestação séria ao fato de que isso vem ocorrendo em um ritmo muito elevado. Entre 1910 e 1940 (portanto, em trinta anos), a temperatura média do planeta se elevou 0,35 grau. Entre 1970 e hoje (38 anos), subiu 0,55 grau. Nos últimos doze anos o planeta experimentou onze recordes consecutivos de altas temperaturas.

2. ALÉM DAS MEDIÇÕES, EXISTEM OUTRAS EVIDÊNCIAS IRREFUTÁVEIS DO AQUECIMENTO?
O derretimento do gelo especialmente na calota norte, o Ártico, que vem perdendo área a cada verão, é uma forte evidência. Na calota sul, a Antártica, as perdas são menores e há até aumento da massa total de gelo mesmo com diminuição da área. Paradoxo? Não. Esse aumento é atribuído ao aquecimento global, que elevou a umidade na região, em geral mais seca do que o Deserto do Saara. Com mais chuvas, forma-se mais gelo.

3. OS CIENTISTAS DISPÕEM DE INSTRUMENTOS CONFIÁVEIS PARA AVALIAR AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS?
Os sinais do aquecimento global não são produto de modelos de computador, mas de medições por instrumentos precisos. Entre as mais concretas estão as medições feitas por satélites e por sondas flutuantes nos oceanos, que fornecem dados em tempo real, segundo a segundo.

São consideradas também as medições menos diretas, como a que detecta a espessura e a extensão do chamado "permafrost", o terreno eternamente congelado no Círculo Polar Ártico. Até as flutuações de cores nas auroras boreais fornecem dados sobre a temperatura da Terra. O interessante é que todas as medições, diretas e indiretas, apontam para o aquecimento, sem discrepâncias.

4. A TEMPERATURA DA TERRA TEM CICLOS NATURAIS DE AQUECIMENTO E RESFRIAMENTO. POR QUE O AQUECIMENTO VERIFICADO AGORA NÃO É NATURAL?
Há menos de quarenta anos, na década de 70, alguns cientistas chegaram a prever que o planeta estava entrando em uma nova era glacial, tamanha a agressividade dos invernos no Hemisfério Norte. Essa previsão não pode ser comparada à previsão de aquecimento de agora.

Nunca houve consenso sobre a iminência de uma nova era glacial, tratava-se de pura especulação. Agora existe um consenso mundial entre os cientistas de todas as tendências de que o planeta está se aquecendo. Menos consensual, mas majoritária, é a noção de que o aquecimento é causado pelo atual estágio civilizatório humano, em especial as atividades industrial e de consumo.

5. POR QUAIS PERÍODOS DE AQUECIMENTO A TERRA JÁ PASSOU?
Nos últimos 650.000 anos foram identificados pelo menos quatro. O primeiro há 410.000 anos, o segundo há 320.000, o terceiro há 220 mil anos e o quarto há 110 mil.

GRAMA É FONTE DE ENERGIA



Grama poderá ser a próxima fonte

Quando se trata do processo de digerir grama, ninguém faz melhor que as vacas (ou outros ruminantes). Agora os cientistas estão de olho nelas, para descobrir pistas que possam ajudá-los a produzir biocombustível. Os resultados têm sido encorajadores - pesquisadores descobriram mais de uma dúzia de micróbios que fazem biologicamente o trabalho de dissolver celulose em seus estômagos.

Técnicas de sequenciamento genético estão forçando micróbios a revelar segredos, como por exemplo quais enzimas fazem na verdade o metabolismo no rume da vaca. Segundo Eddy Rubin, do Departamento de Energia dos EUA, "a indústria está buscando melhores meios de dissolver biomassa para uma nova geração de biocombustíveis. Estamos examinando a maquinaria molecular usadas por micróbios que podem decompor plantas".

Os pesquisadores queriam achar micróbios que trabalham no ambiente sem ar do rumem da vaca. Abriram cirurgicamente um orifício nele para extrair uma amostra. Usando a metagenômica, um método de sequencimento de genes que mapeiam o DNA de uma comunidade de organismos, e não de um só, isolaram as enzimas produzidas pelos micróbios.

O alvo do estudo é um tipo de grama muito resistente, que pode crescer em lugares inóspitos mas pode servir para produzir biocombustível, segundo o About My Planet. Ela é particularmente difícil de ser utilizada, diz Rubin: "Os micróbrios evoluíram por milhões de anos para degradar eficazmente biomassa recalcitrante. Comunidades destes organismos podem ser encontrados em diversos ecossistemas, tais como no rume de vacas, em estômago de cupins ou como cobertura do chão de florestas".